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== História == === A Cidade que Deus Esqueceu === Esteban Murillo Vega nasceu em 1857 no Albaicín — o bairro mourisco de Granada que os séculos de Reconquista nunca conseguiram apagar completamente. Filho de um sacristão devoto e de uma mãe que rezava em voz baixa demais, ele cresceu entre igrejas construídas sobre mesquitas, entre cruzes fincadas onde outrora havia minaretes. Granada era uma cidade que havia aprendido a esconder suas heranças e a sobreviver através da submissão — e Esteban, desde cedo, sentiu que havia algo de profundamente desonesto nessa sobrevivência. Aos dezessete anos entrou no seminário de Granada. Era inteligente, era aplicado, e era — o que os padres mais velhos logo perceberam com desconforto — muito curioso. Ele queria entender ''por que'' a Igreja tinha queimado os que não se converteram. Queria saber o que havia nos manuscritos árabes que a Inquisição mandara destruir. Fazia perguntas que não eram perguntas de fé, mas perguntas de dúvida com a roupagem da teologia. Sobreviveu no seminário sete anos. Foi expulso em 1881 por "tendências heterodoxas" — eufemismo para o fato de ter descoberto, e não ter sabido calar, que o padre-reitor mantinha um arquivo de confissões que usava para extorquir famílias da cidade. === O Que Resta Depois da Fé === Os quatro anos entre a expulsão e o Abraço foram os mais escuros de sua vida mortal. Sem a estrutura do seminário, sem perspectiva de carreira na Igreja que havia moldado toda a sua identidade, Esteban derivou pelo submundo intelectual de Granada — tertúlias de maçons, círculos de espíritas, reuniões de anarquistas que se encontravam em fundos de taberna. Bebia mais do que devia. Escrevia panfletos que ninguém lia. Foi nesses círculos que conheceu ''Inés''. Inés apresentou-se como jornalista de Madrid, interessada nas tradições populares do sul. Era culta, sedutora, e demonstrava um interesse genuíno nas teorias de Esteban sobre a hipocrisia das instituições religiosas. Ele falou demais, como sempre. Ela ouviu, como sempre fazia com suas presas. O Abraço veio numa noite de novembro de 1885, sem cerimônia. Inés não lhe explicou o que era antes de fazê-lo — isso seria considerado um luxo sentimental. Esteban acordou enterrado em terra úmida, com a mandíbula quebrada e a cabeça cheia de um silêncio diferente de qualquer silêncio que já havia conhecido. Quando cavou seu caminho para fora, havia algo nas sombras esperando por ele. Não Inés — ela já havia partido. Havia apenas a Manda, e o Rito de Criação, e a Vaulderie, e a revelação de que toda a sua raiva de uma vida inteira havia sido, afinal, uma qualificação. === O Sacerdote que Aprende a Esperar === Os primeiros dez anos foram de formação brutal. A Manda de Inés operava entre Granada e Málaga, atacando os interesses da Camarilla com a mesma lógica que Esteban havia aplicado ao seminário: entrar, observar, encontrar a contradição que ninguém queria admitir, e puxar o fio até que tudo se desmontasse. Ele não tinha vocação para a violência direta. Tinha vocação para o que o Sabbat chamava de ''guerra fria'' — a paciência de infiltrar, de cultivar informantes mortais, de construir mapas de influência que um dia serviriam como plantas de ataque. Os poderes que o sangue Lasombra lhe concedeu aprofundaram essa tendência: as sombras obedeciam a ele, e ele aprendeu que as sombras não precisam de força — precisam apenas de paciência e de que a luz nunca as enxergue diretamente. Em 1897, Inés foi destruída por um agente da Ordem de San Carlo numa emboscada em Málaga. Esteban sobreviveu porque havia chegado tarde — um hábito de precaução que cultivara contra o conselho de sua sire, que chamava de covardia o que ele preferia chamar de estratégia. Ficou sem patrona, sem Manda, sem direção por três anos. Foi então que chegou a Madrid, e então que conheceu [[Lucita de Aragão]]. === A Arcebispa e o Espião === Lucita não o recrutou de imediato. Observou. Testou — mandou-o numa missão impossível contra uma rede de contatos Ventrue em Valência e ficou surpresa quando ele voltou com a informação que pedira, intacto, sem ter deixado rastro. Só então o aceitou sob sua proteção. A relação entre eles nunca foi afetuosa. Lucita de Aragão não era o tipo de pessoa que cultivava afeto — era o tipo que cultivava ferramentas. Steban compreendia isso e, à sua maneira fria, respeitava a honestidade do arranjo. Ela lhe dava propósito. Ele lhe dava inteligência. Era uma troca limpa. Durante a primeira década do século XX, Steban tornou-se Sacerdote de sua própria Manda — um bando pequeno de quatro vampiros, especializado em infiltração e mapeamento. Não eram guerreiros. Eram cartógrafos da Jyhad. Quando a Grande Guerra estourou em 1914 e o caos europeu criou rotas de movimento que os Kindred mais cautelosos hesitavam em usar, Lucita viu a oportunidade. === Paris, 1917 === Steban chegou a Paris em outubro de 1917, sozinho, com identidade falsa de comerciante de arte valenciano chamado ''Sebastián Valls''. Trouxe consigo dois mortais comprados — um fixador de arte com conexões em Saint-Germain e uma secretária que havia trabalhado para um adido diplomático espanhol. Sua missão era simples na descrição e complexa na execução: ''conhecer Paris''. Não atacar. Não provocar. Apenas aprender quem eram os Kindred que sustentavam a Máscara naquela cidade, quais mortais eles usavam, onde dormiam, de quem dependiam. Construir o mapa que, quando Lucita decidisse que era hora, tornaria a queda da cidade uma questão de logística, não de força. Em 1918, quando a crônica começa, Steban está há quase um ano em Paris. Frequenta os mesmos salões que os personagens frequentam. Conhece as mesmas pessoas mortais. Ainda não revelou sua natureza para ninguém na cidade — e pretende manter esse segredo por quanto tempo for necessário. O que ele não esperava era o nível de complexidade da política Kindred parisiense. Ou que alguns dos vampiros que deveria mapear como alvos seriam, de maneiras que ainda está processando, interessantes. ----
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